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Howard Fast

Howard Fast

 

M A X

 

 

Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos

 

 

Digitalização: Argo

www.portaldocriador.org

 

 

 

 

 

 

Rachel e Avrum

 

Bênçãos


CAPÍTULO UM

 

NOVEMBRO 1891

 

Max aos 12 anos

 

 

 

 

Como acontece com a maioria das pessoas que entram neste mundo, Max Britsky o fez de forma violenta e invo­luntária. Assim que a vida lhe foi incutida, com uma pal­mada na bundinha vermelha, ele gritou de raiva e ressenti­mento, com uma voz e vigor que surpreenderam o Dr. Segal, segurando-o de cabeça para baixo, pelos pés.

— Mas que coisa! — murmurou o Dr. Segal. — Um patifezinho esquelético, mas cheio de vida. Não deve ter mais que dois quilos e meio, mas como está vivo!

O nascimento ocorrera no apartamento de Abraham Britsky, na Henry Street, no Lower East Side da cidade de Nova York, no 15.° dia de novembro de 1879. Foi antes do tempo em que a maioria das crianças nasceria em hospitais. A mãe de Max, Sarah Britsky, estava estendida na cama, olhando para a visão vaga de um pequeno pedaço de carne rosada e vermelha, como uma rã, os pés seguros pela mão do Dr. Segal: seu primeiro filho. Sarah Britsky ainda não tinha 23 anos. Quando não estava exausta, lívida, suando, salpicada de sangue, ainda tremendo do parto, era uma jovem relativamente atraente, com feições regulares e uma boa cabeça de abundantes cabelos castanhos. O ma­rido, Abe, era cinco anos mais velho e também mais assus­tado do que ela. Quando estava trabalhando — seis dias por semana, exceto naquele dia — era um cortador numa fábrica de roupas, que lhe pagava sete dólares por semana para um dia de 12 horas.

Max era seu primeiro filho. Mas Abe Britsky era um homem viril e, depois que Max entrou na vida clamorosa­mente, irmãos e irmãs foram aparecendo quase que por uma programação cósmica. Freida nasceu em 1880; 12 meses depois, um bebê recém-nascido morreu sem nome. Reuben apareceu em 1883 e pouco menos de três anos depois, em 1886, Sheila viu a luz do dia. Esther nasceu em 1888 e 14 meses depois, em 1889, Benjamin Britsky juntou-se à crescente população dos Estados Unidos.

O país tinha território em abundância, mas o pequeno apartamento de água fria na Henry Street não podia ser expandido. Possuía dois quartos do tamanho de um closet, uma pequena sala de estar, uma pequena sala de jantar e uma pequena cozinha. Como os cômodos eram enfilei­rados, um depois do outro, sem qualquer ligação com o exterior, além de um poço de ventilação, escuro e estreito, chamavam-no de apartamento ferroviário. E era também conhecido como apartamento de água fria, já que o senho­rio não fornecia água quente. Por um ano depois do nasci­mento do sexto filho, Abe Britsky jurou que pediria um aumento, exigiria um aumento, suplicaria um aumento. Mas, infelizmente, toda a sua virilidade parecia se concentrar nas gônadas e a coragem lhe faltava cada vez que se aproximava do patrão. Assumindo a única alternativa que lhe parecia razoável e dentro da sua competência, ele arrumou um trabalho aos domingos, como taifeiro na barca da Pennsylvania Railroad para Nova Jersey. Mas trabalhar sete dias por semana provou ser demais para a sua constituição já esgotada e, aos 40 anos, ele caiu morto no trabalho, vítima de uma maciça trombose da coronária.

Max estava se aproximando do 12.° ano quando o pai morreu, deixando Sarah Britsky com seis filhos peque­nos, um apartamento ferroviário na Henry Street e 12 dó­lares e 20 cents no jarro marrom na cozinha, que funcio­nava como o banco Britsky. Como as economias dos Britsky só haviam passado da marca dos 50 dólares uma vez, desde o nascimento de Max, baixando muitas vezes até dois dóla­res, uma reserva de 12 dólares nada tinha de excepcional. Tanto Abe como Sarah Britsky eram imigrantes, ele da Lituânia, ela da Polônia, os dois lançados através do oceano a caminho do Novo Mundo pelas energias coletivas de suas famílias, que haviam ficado para trás. Através dos anos, houvera a esperança persistente de que outras pessoas da família pudessem eventualmente vir se juntar a eles. Mas como isso não acontecera, a esperança finalmente se desva­necera. Quando Abe morreu, a Sinagoga Beth Sholom le­vantou o dinheiro para um funeral simples. Depois, Sarah voltou para casa com os filhos e ponderou se deveria se matar. Não havia, naquele tempo, nenhum programa oficial de assistência social, nenhuma ajuda aos pobres, exceto a proporcionada por instituições de caridade particulares, e as que se estendiam ao Lower East Side de Nova York estavam além do alcance de Sarah. Assim, ainda por com­pletar os 12 anos, Max Britsky tornou-se o chefe de uma família de sete pessoas, o esteio de suas vidas e esperanças.

Max assumiu seu papel. Enquanto a mãe chorava e clamava a sua dor, apavorando os cinco filhos menores, Max agiu. Estava na sexta série da escola pública na East Broadway; silenciosamente, subjetivamente, encerrou seus estudos. Transmitiu sua decisão à mãe laconicamente, di­zendo apenas:

— Vai dar tudo certo.

— Mas como ousa dizer uma coisa dessas? — gritou Sarah. — Estou morrendo e você me diz que vai dar tudo certo!

Ela falou em iídiche, pois seu inglês ainda era muito deficiente, não dava para ser usado sob tamanha tensão emocional. E, depois, esbofeteou Max. O que era de se esperar. Se o seu amor por um homem, agora falecido, que a mantivera grávida pela maior parte dos últimos 13 anos não era tão sincero quanto aparentava, a enormidade da tragédia com que agora se defrontava não podia ser exagerada. Assim, a desfaçatez daquele garoto esquelético de 12 anos transformou a dor em raiva. À sua maneira, Max compreendeu isso e aceitou o golpe sem qualquer ressen­timento.

Anos mais tarde a vida de Max seria o alvo de muita indagação social e artística. Mas ninguém levou em consi­deração os fatores que o formaram — fatores que fizeram o menino que se tornou o pai do homem. O homem, em anos posteriores, foi muitas vezes acusado de desonestidade. Mas não era desonesto e também não era um ladrão. O menino foi ladrão uma vez, excluindo-se os pequenos furtos inconseqüentes; ladrão de verdade foi apenas numa única ocasião. O furto consistia de seguir a carroça de leite, durante a madrugada, no bairro rico em torno do Gramercy Park, ao norte, já que a entrega de leite era algo que difi­cilmente se encontrava nos arredores da Henry Street. As duas ou três garrafas de leite que resultavam de tais in­cursões eram encaradas com amargura por Sarah, mas acei­tas em silêncio. A única incursão de Max no roubo de verdade foi recebida com uma ira mais vocal.

Aconteceu no dia seguinte ao funeral do pai, o dia em que ele disse à mãe que as coisas acabariam dando certo, o dia em que enfrentou a necessidade de dinheiro imediato. Havia alguma comida no apartamento, trazida por pessoas da sinagoga, que tinham uma vaga afinidade tribal, mas afora isso eram estranhas, pois Abe Britsky não tivera uma vida social ou religiosa que valesse a pena mencionar. Havia pão e queijo, um saco de batatas e um salame. Mas com a fome habitual da família Britsky, não era muito mais do que a ração para um dia. E não havia dinheiro. Max Britsky era um realista. Na sua idade, não tinha muitos cursos de ação abertos à sua frente, mas era perfeitamente capaz de enfrentar os que representavam uma parte de sua realidade. Ficou pensando no alpendre na frente do cortiço que alojava sua família, um menino pe­queno, muito magro, cabeça comprida e estreita, nariz pontiagudo, boca larga de lábios cheios e olhos de um azul muito claro. Os cabelos castanhos-claros cobriam as ore­lhas, desgrenhados. Os sapatos eram muito gastos, com buracos nos dedões e nas solas. As meias eram frouxas e rasgadas, a calça curta esfiapada na altura dos joelhos, uma camisa suja e puída, uma suéter velha complementando a indumentária.

Era o final de setembro e assim ele ainda não tinha de se confrontar com o tempo do inverno, uma perspectiva inquietante, já que seu capote do ano passado fora transfe­rido para Freida. Mas uma coisa de cada vez e um dia depois do outro. Hoje, ele precisava de dinheiro para sobre­vivência. Depois de considerar todas as alternativas, Max entrou em ação.

Era de dois quilômetros e meio a distância dos cortiços da Henry Street para os desfiladeiros de concreto do dis­trito financeiro, que ficava ao sul. Max poderia ter para­fraseado um ladrão posterior, que explicou que assaltava bancos porque era onde estava o dinheiro. No seu único caso de crime premeditado, Max encaminhou-se para o distrito financeiro pelo mesmo motivo, a presa um homem corpulento, de barriga estofada. Um homem assim podia ser encontrado nas proximidades de Henry Street, só que as barrigas do gueto não ostentavam relógios e grossas correntes de ouro. Na esquina da Pine com a Nassau, Max encontrou uma barriga conveniente, coberta por um colete branco e cruzada por uma grossa corrente de ouro de indis­cutível qualidade. O dono dessa corrente de ouro estava empenhado em conversa profunda com outro cavalheiro. Nenhum dos dois percebeu o menino magro que se apro­ximou sorrateiramente, agarrou de repente a corrente de ouro, com os dez dedos, e deu um puxão. O colete se abriu, botões voando, a botoeira que continha a corrente se rasgou, o relógio na extremidade foi arrancado do bolso. Antes que qualquer dos homens se recuperasse da surpresa e come­çasse a berrar "Pega ladrão!", Max já se esgueirara pela multidão.

A rua era seu elemento, a rua o acalentara e lhe proporcionara toda a sabedoria que possuía. Quando os gritos de "Pega ladrão!" finalmente soaram, Max já estava a um quarteirão de distância, entrando por uma viela. Um homem correndo atrai uma multidão; um menino correndo não chama a atenção de ninguém. Max correu por todo o percurso até a loja de penhores de Moe Splenski, na Rivington Street. Já estivera ali, com peças de latão, maça­netas, dobradiças e suportes, encontrados no depósito de lixo na South Street. Mas nunca fora até ali com qualquer coisa que valesse mais de 10 cents. A corrente e o relógio que Max empurrou pelo guichê gradeado para Splenski valiam muito mais do que 10 cents. Splenski examinou atentamente, abriu a tampa do relógio, mexeu os ponteiros. E depois ofereceu dois dólares a Max.

— Vá se foder — disse Max. — Meu pai morreu ontem. Minha mãe tem seis filhos. Quero vinte dólares.

As poucas palavras abrangiam toda a situação. Estu­dando os frios olhos azuis do menino, Splenski cofiou a barba e assentiu.

— Dez dólares.

Splenski sabia que a corrente e o relógio valiam pelo menos cem. Max estendeu a mão.

— Devolve.

Splenski pôs a corrente e o relógio fora do alcance dele.

— Seu pai morreu ontem?

— Isso mesmo.

— Doze dólares.

— Como eu já disse, vá se foder.

— E se eu chamasse a polícia?

— Pode chamar. Diga que quero pôr no prego o relógio do meu pai. E aproveite para dizer também de onde vêm as outras coisas que tem aqui.

— Você é um garoto atrevido.

— O problema é meu. Quero em notas de um dólar... só notas de um dólar. E sei contar.

A partir desse dia e desse momento, a escola se tornou uma coisa do passado. Max estava agora no ofício de sobre­vivência. Compreendeu prontamente que as oportunidades de emprego eram poucas e insuficientes para um garoto de 12 anos. Nenhum lhe pagaria o que precisava para sustentar uma família de sete pessoas, seis das quais eram crianças abençoadas com apetites saudáveis. Max tinha de ser um operador independente e para isso precisava de capital. Voltou ao apartamento da família e pôs apenas 18 dólares na mesa, diante da mãe angustiada, retendo dois dólares.

— O que é isso? — perguntou Sarah.

— Aquele filho da puta do Himmelman já esteve aqui?

Himmelman era o senhorio.

— Não fale palavrão!

— Ele esteve aqui? Isso é tudo o que estou pergun­tando.

— Esteve.

— E o que ele disse?

— O que ele disse? O que ele disse? — Sarah estava gritando, furiosa, esquecida que se dirigia a um menino de 12 anos e falando como poderia ter feito com o marido, num ganido arrebatado, quase ameaçador. — O que pode­ria dizer aquele príncipe do mal? O aluguel vence amanhã. Pague ou caia fora. Ele fareja a morte como um cachorro fareja a imundície. Dizem que ele vive na parte alta da cidade, junto com os judeus ricos, mas veio bater na minha porta antes que o pobre Abe esfriasse na sepultura. E vai nos jogar na rua!

A voz dela se alteou ainda mais ao final. O pequeno Benny Britsky, de apenas um ano e meio, estava deitado no berço que passara de um nascimento para outro. As outras quatro crianças estavam na cozinha, partilhando o drama pavoroso que se abatera sobre a família, observan­do, escutando, tentando compreender a mensagem do dia do juízo final. Max apontou para o dinheiro.

— Tem dezoito dólares aí. Nove dólares para o alu­guel e nove dólares para comprar comida. Ninguém vai pôr a gente na rua.

— Onde arrumou isto? — perguntou Sarah, pegando o dinheiro.

— Que diferença faz? Eu consegui.

— Você roubou, seu desgraçado!

Sarah tornou a esbofetear o filho, só que desta vez sem muita força e convicção.

— Não vamos passar fome e ninguém vai nos jogar na rua — disse Max, firmemente.

Já houve declarações de intenções muito piores.

 

 

Foi uma presunção de Max declarar, em anos posteriores, que tinha sido criado no meio do show business, que aquilo estava em seu sangue. A pequena operação que ele iniciou, junto com os outros empreendimentos independentes, tinha apenas uma tênue ligação com o show business. Mas, como outros de seus empreendimentos, partilhava da mesma ima­ginação. Max pensava em coisas que escapavam aos outros. Mas, em seu caso, a imaginação era limitada e orientada com a intensidade de um raio laser. Se Max fosse levado à introspecção e forçado a declarar por que tinha de aceitar a responsabilidade pela sobrevivência das sete vidas que constituíam a família Britsky, não seria capaz de apresen­tar uma resposta. Mas a questão não foi formulada, por outra pessoa ou por si mesmo.

O show business, por outro lado, vicejava na cidade de Nova York no ano de 1891. Além dos teatros de língua inglesa, havia quatro companhias iídiches, duas alemãs, uma italiana e uma tcheca. A expulsão do teatro iídiche da Rússia pelo czar, poucos anos antes, provocara uma verdadeira explosão do drama iídiche no Lower East Side. Na língua inglesa, mais de 40 teatros prosperavam com uma sucessão de peças medíocres, entremeadas de vez em quando por obras de Shaw, Ibsen, Barrie e Shakespeare, além de Strindberg, Hardy e outros europeus consagrados. A era do teatro nativo americano ainda estava no futuro, mas o amor e obsessão pelo teatro eram uma parte da época. Os nova-iorquinos adoravam o teatro. Todos que podiam pagar o preço de um ingresso iam ao teatro em uma ou outra ocasião — exceto pelos lojistas nascidos na Europa, cujas longas horas de trabalho e dificuldades com a língua os tornavam indiferentes ao teatro falado em inglês.

Max sabia disso muito bem e foi o motivo pelo qual preservou seu capital de dois dólares. Cada manhã, depois da morte do pai, Max saía de casa às seis e meia, acom­panhado pelo irmão Ruby, de oito anos. Eram as duas crianças Britsky com idade suficiente para dizerem a Kaddish, a oração judaica para os mortos, que o filho repete todas as manhãs e todas as noites, durante um ano, após a morte do pai. Max transformou Ruby em seu substituto, largando-o na porta da sinagoga com o comentário de que ninguém jamais comera uma oração.

Eles comiam bagels, no entanto, o pão duro, indigesto, no formato de anel, trazido para a América na década de 1870 pelos imigrantes judeus da Europa Oriental. Como ainda era muito cedo para Max se lançar no que seria lembrado como seu ingresso no show business, ele foi no primeiro dia à fábrica de bagels de Kurtz, na Broome Street. Já estivera ali uma vez, na manhã de domingo, em companhia de Shutzie Levine, de 17 anos, tolerando Max como ajudante, a quem pagara 10 cents pelo trabalho da manhã. As pequenas fábricas do East Side funcionavam 12 horas por dia, seis dias por semana, concedendo aos trabalhadores judeus apenas um dia de folga, o sábado. Como Shutzie ainda estava na escola secundária, o domingo era o único dia em que podia se empenhar no negócio de vender bagels quentes aos trabalhadores.

Max, cujos estudos pertenciam ao passado, entrou no negócio num dia de semana. Avançou pela padaria quase sem ser percebido, saboreando os aromas sofregamente, observando os padeiros moldarem os bagels num movi­mento rápido, ao mesmo tempo complicado, largando-os nos caldeirões com água fervendo, de onde eram pescados e levados para o forno, lá adquirindo uma tonalidade acas­tanhada, quase dourada.

Alguém finalmente percebeu-o e indagou o que es­tava querendo.

— Quero cem bagels — respondeu Max, pondo uma nota de um dólar em cima do balcão.

— Por que não e...

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